| Por Ricardo Tapajós
A infecção pelo HIV entrou para a história da raça humana na década de 80. Doença de fim de século. Aspirava, como toda boa doença, a ser um fenômeno “biomédico-virológico-imunológico-epidemiológico”, abordável por conhecimento e método científicos, e redutível a um quadro clínico, uma fisiopatogenia, uma terapêutica.
Mas as doenças, como sabemos há muito, são fenômenos da experiência humana e vêm recheadas de significados, símbolos, metáforas e valores.
A infecção pelo HIV, em pleno furor pós-moderno, virou uma grande epidemia de discursos, daquele tipo de discurso que ao ser discursado quer construir uma verdade. Geralmente míope. Assim, a doença foi construída por discursos dominantes, de governo, de igreja, de cientistas, de políticos, como uma doença do outro, nunca de nós mesmos. O outro, mas nunca nós, é o homem que faz sexo com homens, é a trabalhadora do sexo, é o imoral, o promíscuo, o adúltero, o estrangeiro, o pecador, aquele que desvia.
Em 2010, após 30 anos de discursos identitários, vejo indeferido meu pedido de colocar meu marido, com quem convivo em relação estável há mais de 6 anos, com declaração lavrada em cartório e tudo, como co-titular de um clube na cidade de São Paulo. Do clube que é meu clube desde que nasci. Do clube que deferiu um a um os pedidos de meus colegas do sexo masculino de colocar suas concubinas (é o termo da lei, quando não há casamento) em seus títulos familiares.
Ricardo Tapajós é infectologista e professor na Faculdade de Medicina da USP. |