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CIA DE TEATRO BRASILEIRA APRESENTA 'AUTO DA CAMISINHA' EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE


24/10/2008 - 16h

Uma campanha de prevenção diferente – e importada – vai ocupar os palcos de São Tomé nas próximas duas semanas. O Auto da Camisinha (veja vídeo), realizada pelo grupo brasiliense O Hierofante - Companhia de Teatro do Brasil, traz mensagens sobre o uso da camisinha, doenças sexualmente transmissíveis (DST), Aids e gravidez na adolescência.

De autoria do brasileiro José Mapurunga, a trama é simples e não deixa dúvidas: Benedito quer ter relações com a sua namorada Leonor, mas ela exige o uso da camisinha. É só aí que o jovem toma conhecimento dos preservativos.

O jovem a deixa, assustado, sem entender a razão da exigência. Depois de consultar várias pessoas sobre a utilidade da camisinha, ele finalmente entende a sua importância na prevenção de DSTs.

Testando conhecimentos

Depois do final da peça, os três atores ainda fantasiados dirigem-se à platéia com perguntas como “Como se contrai o HIV?” e “O que é soropositivo?”.

A estudante da sexta série Jocelina Costa, 14 anos, não hesitou: “Apanha-se o vírus através de relações sexuais sem camisinha. E podemos comer ou brincar junto com um doente de Aids”.

A peça cativou a atenção dos dois mil estudantes – e também dos professores – da Escola Secundária Patrice Lumumba, na cidade de São Tomé, onde a peça estreou.

“Fiquei elucidado com a atuação. A mensagem-chave é que numa relação sexual temos sempre que utilizar o preservativo”, disse Bernardo Pinto, 13 anos, estudante da quinta classe.

O professor de biologia Anastácio Quaresma também aplaudiu a iniciativa.

“É de pequeno que se torce o pepino. Esses alunos são jovens, é bom que ganhem a consciência de que a Aids existe, que é uma doença incurável, e que pode ser evitada utilizando o preservativo”, afirmou.

Formação para atores

A visita do grupo O Hierofante também prevê formações para atores locais.

No auditório do Centro Cultural Brasileiro, membros de sete grupos teatrais são-tomenses participarão por quatro dias de uma formação para melhorar o desempenho de atores e dramaturgos nacionais.

A formação se baseia nas técnicas de autores como a americana Viola Spolin e os russos Constantin Stanislavski e Michael Chekhov.

“Essas técnicas vão permitir que os atores tenham mais ferramentas técnicas e capacidade de improviso”, explicou Pablo Peixoto, ator e produtor da companhia brasileira.

Para Djair Mendes*, 24 anos, a formação trará novos horizontes em sua carreira. Já falar da Aids não será novidade, nem na vida profissional, nem na pessoal.

Mendes participou no mês passado de uma dramatização promovida pelo Programa Nacional de Luta contra Aids (PNLS), que ele considerou “fascinante”. Mas foi em casa que viu a seriedade do assunto: o seu pai morreu no ano passado de uma doença relacionada com a Aids.

“Não sei ao certo se ele contraiu o HIV em São Tomé ou em Angola, mas ele veio de Angola já em fase terminal”, contou. “Foi triste, só o reconheci pelo rosto de tão magro que ele estava.”

Segundo ele, o seu pai era mecânico e resolveu se aventurar em Angola depois de se separar de uma das suas mulheres. Mendes tem mais de 20 irmãos.

Battiloi Warritay, representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), enfatiza que a idéia da formação não é criar um grupo de teatro que aborde apenas DSTs ou Aids, mas preparar melhor os atores para comunicar outras mensagens desse tipo.

“Queremos que os atores são-tomenses, com a experiência que já têm, saibam levar da melhor forma as mensagens para o público”, diz.

O grupo O Hierofante já existe há cerca de 14 anos e a peça O Auto da Camisinha já foi apresentada cerca de 400 vezes, mas está é a primeira exibição fora do Brasil.

A iniciativa é uma parceria entre o PNLS, o UNICEF e a Embaixada do Brasil em São Tomé e Príncipe.

*nome fictício


Fonte: Plus News

 
:: ARTIGO ::
Da ampliação do diagnóstico ao fortalecimento da prevenção

Por Mariângela Simão

O ano de 2009 foi um marco no enfrentamento da epidemia do HIV/aids no Brasil. Começou com a proposta de ampliação do diagnóstico do vírus em vários segmentos da população. Para isso, colocou em destaque o teste rápido, que agora é 100% nacional. O método reduz o tempo de espera – o resultado sai em menos de 30 minutos –, pode chegar a locais de difícil acesso ou sem estrutura laboratorial.

Ao longo do ano, foram encaminhados ao 26 estados e ao Distrito Federal quase dois milhões de dispositivos para realizar os testes rápidos. Trata-se do recorde anual, desde que a nova metodologia foi adotada pelo programa de aids brasileiro em 2005 para diagnóstico na população geral. Para se ter ideia, o quantitativo do ano passado é quase quatro vezes maior que no lançamento, há cinco anos. Essa ampliação foi um compromisso assumido pelo ministro José Gomes Temporão por ocasião do Dia Mundial de Luta contra a Aids de 2008.
Nunca é demais lembrar que uma parte importante dos diagnósticos de aids é feita tardiamente, quando o sistema imunológico das pessoas já está comprometido.

Outro destaque importante do ano foi o anúncio da maior pesquisa sobre conhecimentos, atitudes e práticas sexuais da população brasileira. A boa notícia é que a camisinha vem se tornando uma grande companheira dos casais no início da vida sexual. Em 2008, 61% dos jovens entrevistados afirmaram tê-la usado na primeira relação. Na pesquisa de 2004, esse índice era de 53%. O problema é que ao longo da vida o preservativo vai sendo deixado de lado. O estudo mostrou que os jovens fazem mais sexo protegido do que os mais velhos. 49,6% das pessoas entre 15 e 24 anos afirmaram ter usado preservativo em todas as relações sexuais com parceiros casuais, nos últimos 12 meses. No grupo entre 50 e 64 anos, esse percentual cai para 32%.

Um dado da PCAP que chama a atenção é que a internet tem sido um meio utilizado pelos jovens para conhecer parceiros. A pesquisa mostra que 10,5% teve pelo menos um parceiro sexual que conheceu na rede mundial de computadores. Entre os acima dos 50 anos, esse tipo de comportamento não chega a 2%.

A comparação dos resultados dos resultados de 2004 com os de 2008 nos acendeu um alerta. O brasileiro tem feito mais sexo casual. Em 2004, 4% das pessoas haviam tido mais de cinco parceiros casuais no ano anterior. Em 2008, esse índice subiu para 9,3%. Ao lado disso, o estudo mostra que quem tem mais parceiros casuais usa mais camisinha do que quem não tem. O conhecimento sobre os riscos de se infectar com o HIV e sobre as formas de prevenção continuam altos. Mesmo assim, a pesquisa identificou tendência de queda no uso do preservativo. Passou de 51,6% em todas as parcerias eventuais, em 2004, para 46,5% em 2008.


Mariângela Simão é diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde

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