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Beto Volpe leva experiência pessoal e luta pela qualidade de vida a audiência pública do STF

04/05/2009 - 16h30

O ativista Beto Volpe, do Grupo Hipupiara de São Vicente foi destaque na audiência pública que o Supremo Tribunal Federal realizou na manhã de hoje, 04 de maio, em Brasília. Volpe foi um dos nove palestrantes convidado pelo STF para debater o direito a saúde. Esta foi a segunda rodada de audiências, que se iniciou na semana passada e que ao todo reuniram 25 especialistas para debates entre outros pontos registro de medicamentos na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), protocolos e diretrizes terapêuticas, e também de políticas públicas e assistência farmacêutica. O Presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, abriu a sessão destacando que o objetivo destes encontros é ouvir o depoimento de pessoas com experiência e autoridade em matéria do Sistema Único de Saúde (SUS) e que os debates deverão esclarecer questões técnicas científicas, administrativas, políticas, econômicas e jurídicas relativas às ações de prestação de saúde do SUS.

Após a fala do presidente da ANVISA, Dirceu Raposo e do representante do Conselho Federal de Medicina, Geraldo Guedes a palavra foi passada a Beto Volpe apresentado como fundador do grupo Hipupiara e membro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids. Volpe quebrou a linha de tecnicista que vinha sendo desenvolvida ao iniciar seu depoimento se revelando portador do HIV há 20 anos e as dificuldades que tem passado em decorrer desta situação como a necessidade de 15 intervenções cirúrgicas e o surgimento de cânceres ao longo do tempo. O plenário ouviu atento às intervenções do ativista que defendeu a integralidade absoluta do SUS como conceito basilar para se salvar vidas. Para ilustrar, contou sua própria experiência em recorrer duas vezes ao Judiciário para obter medicamentos que garantiram a continuidade de sua vida.

Volpe apresentou duas propostas ao STF. A primeira quer garantir aos pacientes que fazem parte de pesquisas, a garantia de continuidade do fornecimento dos medicamentos. Citou exemplos de laboratórios farmacêuticos que impedem a continuidade de tratamento após o final das pesquisas obrigando os pacientes a recorrerem ao Judiciário. A segunda tese apresentada quer garantir aos pacientes o acesso a medicamentos não licitados e não previstos na lista do SUS, desde que tenham certificação internacional. Para isto sugere que se criem, a exemplo do que já ocorre no estado de São Paulo, um GT que avalie administrativamente os pedidos de medicamento sem a necessidade de intervenção judicial e de custas elevadas ao Estado.

Por fim, citou exemplos de outras patologias que necessitam igualmente de atenção como as hepatites virais, “onde muitas vezes o Judiciário é a única alternativa para acesso a medicamentos”, a tuberculose e a sífilis congênita. Segundo ele, atualmente nove milhões de pessoas recebem medicamentos excepcionais e que se utilizado o conceito de “financeiramente possível” defendido pelo presidente do Conselho Nacional de Secretários da Saúde (CONASS), Osmar Terra, acontecerá um “genocídio em massa” dos pacientes e os gestores e os poderes de decisão terão responsabilidade.

Papel da Anvisa

O papel da ANVISA- Agencia de Nacional de Vigilância Sanitária neste processo foi um dos pontos de maior discussão na audiência publica. O diretor-presidente da ANVISA, Dirceu Raposo de Mello, explicou os critérios para que um medicamento cumpra o regulamentado pela Lei 6.360/76 e que nenhum dos produtos de que trata a lei, inclusive importados, poderá ser industrializado, posto à venda ou entregue ao consumo antes de registrado no Ministério da Saúde que analisa critérios de segurança eficácia e qualidade farmacotécnica. Explicou que a entrada de novos medicamentos no mercado é cada vez mais rápida. Segundo a OMS, mais de 50% dos avanços tecnológicos atuais não existiam há dez anos.

A necessidade de atualização periódica dos protocolos de tratamento foi defendida pela procuradora do Rio Grande do Sul, Janaina Gonçalves. O estado ocupa hoje 41% do seu orçamento com política de assistência farmacêutica sendo que o crescimento de ações judiciais cresceu quase 20% entre 2007 e 2008. Segundo ela, foram identificados casos no estado de grupos de pacientes que participaram de pesquisas desenvolvidas por laboratórios e que após o termino da mesa tiveram que acionar o estado para garantir a continuidade do tratamento. Em alguns casos o estado tem conseguido responsabilizar os laboratórios chamando-os a discussão judicial sobre a responsabilidade sobre a saúde dos participantes das pesquisas.

O Representante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Paulo Picon propôs a construção de uma nova forma de avaliação criteriosa de medicamentos e tratamentos, com a criação de centros de medicinas regionais que aplicariam a chamada “medicina baseada em evidência”. Segundo ele, esses centros, que já estão em funcionamento no Rio Grande do Sul, funcionariam com a presença de um fórum deliberativo composto pelas várias instâncias representativas da sociedade civil organizada, dos usuários, do governo, das áreas da Justiça, entre outros.

O coordenador da Comissão de Incorporação de Tecnologia do Ministério da Saúde, Claudio Maierovitch Pessanha Henrique, que assumiu o cargo em novembro do ano passado, destacou que o principal desafio “desta instancia é modificar” o enfoque tradicional na adoção de novas tecnologias”. Segundo ele, 86% das propostas de incorporação de tecnologias submetidas ao Ministério da Saúde, entre 20006 e 2008, são oriundas de indústrias farmacêuticas.Destacando a necessidade de se subordinar a análise desses produtos ao interesse público através da participação de outros segmentos nesta discussão.




Liandro Lindner
Especial para a Agência de Notícias da Aids

 
:: ARTIGO ::
Da ampliação do diagnóstico ao fortalecimento da prevenção

Por Mariângela Simão

O ano de 2009 foi um marco no enfrentamento da epidemia do HIV/aids no Brasil. Começou com a proposta de ampliação do diagnóstico do vírus em vários segmentos da população. Para isso, colocou em destaque o teste rápido, que agora é 100% nacional. O método reduz o tempo de espera – o resultado sai em menos de 30 minutos –, pode chegar a locais de difícil acesso ou sem estrutura laboratorial.

Ao longo do ano, foram encaminhados ao 26 estados e ao Distrito Federal quase dois milhões de dispositivos para realizar os testes rápidos. Trata-se do recorde anual, desde que a nova metodologia foi adotada pelo programa de aids brasileiro em 2005 para diagnóstico na população geral. Para se ter ideia, o quantitativo do ano passado é quase quatro vezes maior que no lançamento, há cinco anos. Essa ampliação foi um compromisso assumido pelo ministro José Gomes Temporão por ocasião do Dia Mundial de Luta contra a Aids de 2008.
Nunca é demais lembrar que uma parte importante dos diagnósticos de aids é feita tardiamente, quando o sistema imunológico das pessoas já está comprometido.

Outro destaque importante do ano foi o anúncio da maior pesquisa sobre conhecimentos, atitudes e práticas sexuais da população brasileira. A boa notícia é que a camisinha vem se tornando uma grande companheira dos casais no início da vida sexual. Em 2008, 61% dos jovens entrevistados afirmaram tê-la usado na primeira relação. Na pesquisa de 2004, esse índice era de 53%. O problema é que ao longo da vida o preservativo vai sendo deixado de lado. O estudo mostrou que os jovens fazem mais sexo protegido do que os mais velhos. 49,6% das pessoas entre 15 e 24 anos afirmaram ter usado preservativo em todas as relações sexuais com parceiros casuais, nos últimos 12 meses. No grupo entre 50 e 64 anos, esse percentual cai para 32%.

Um dado da PCAP que chama a atenção é que a internet tem sido um meio utilizado pelos jovens para conhecer parceiros. A pesquisa mostra que 10,5% teve pelo menos um parceiro sexual que conheceu na rede mundial de computadores. Entre os acima dos 50 anos, esse tipo de comportamento não chega a 2%.

A comparação dos resultados dos resultados de 2004 com os de 2008 nos acendeu um alerta. O brasileiro tem feito mais sexo casual. Em 2004, 4% das pessoas haviam tido mais de cinco parceiros casuais no ano anterior. Em 2008, esse índice subiu para 9,3%. Ao lado disso, o estudo mostra que quem tem mais parceiros casuais usa mais camisinha do que quem não tem. O conhecimento sobre os riscos de se infectar com o HIV e sobre as formas de prevenção continuam altos. Mesmo assim, a pesquisa identificou tendência de queda no uso do preservativo. Passou de 51,6% em todas as parcerias eventuais, em 2004, para 46,5% em 2008.


Mariângela Simão é diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde

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