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Brasil possui teste que permite personalizar uso de antirretroviral, informa revista ISTOÉ


24/10/2009 - 11h35

De acordo a revista ISTOÉ, está disponível no Brasil um teste que indica como o antirretroviral maraviroque é metabolizado pelo organismo de cada pessoa, o que permite um tratamento antiaids mais personalizado. Leia a seguir a reportagem na íntegra. Remédios sob medida

Novos testes revelam como cada pessoa reage a medicações contra doenças como câncer, depressão e Aids e tornam o tratamento mais personalizado


Por que um remédio funciona bem para uma pessoa e, para outra, não apresenta resultado? Esta questão sempre intrigou médicos e farmacêuticos. Há algum tempo, parte da resposta já era conhecida: peso, alimentação e horário em que a medicação é tomada, por exemplo, influenciam a maneira pela qual ela é aproveitada pelo organismo. Mais recentemente, ficou claro também o poder da genética nesse processo. Entre outros achados, a ciência descobriu que variações genéticas presentes em um único gene – o CYP2D6 – interferem no metabolismo de 25% dos medicamentos disponíveis. Dependendo do tipo de alteração, a droga pode não fazer efeito porque é metabolizada rápido demais ou, ao contrário, permanece tempo excessivo dentro corpo, aumentando o risco de toxicidade do remédio.

Informações como essas são fruto de uma área de estudo em expansão chamada farmacogenética. Ela se dedica a estudar as interações entre características genéticas e o funcionamento de medicamentos. O objetivo é identificar os fatores que influenciam a atuação das drogas e usar o conhecimento para fazer com que a escolha dos remédios seja cada vez mais acertada. E personalizada. É simples. Se o indivíduo possui uma variante genética que prejudicará o desempenho de um medicamento, o médico pode trocar a opção, mudar sua dose, enfim, planejar um tratamento diferente daquele que foi imaginado.

Muitos dos dados levantados estão dando origem a testes que apontam como cada um reage a uma determinada medicação. No Brasil, acaba de chegar um dos mais modernos do gênero. Trata-se do Amplichip 450, que mostra 28 alterações presentes nos genes CYP2D6 e CYP2C19. Entre os remédios metabolizados por eles estão o carvedilol, para hipertensão, os antidepressivos amitriptilina e paroxetina e os antiepiléticos fenitoína e diazepan.

A consultora de comunicação Karin Faria, de São Paulo, usou o Amplichip para saber as respostas de seu filho, Miguel, 5 anos, ao diazepan. O garoto é portador da síndrome de West, doença que provoca crises epiléticas. Antes do exame, foi descoberto que o remédio se acumulava em níveis tóxicos dentro do organismo do menino. “Descobrimos que o Miguel metaboliza o remédio um pouco abaixo da média. Ele também não possui duas enzimas de inativação/desintoxicação, o que deve ser a causa da toxicidade”, conta. “Agora, o médico poderá optar pelo uso de remédios similares, mas que não sejam metabolizados por estas enzimas, ou pela redução das doses de drogas que possam causar toxicidade.” O teste mostra também a reação de cada mulher ao tamoxifeno, usado contra o câncer de mama. “A presença de variações no gene CYP2D6 faz com que o remédio não seja convertido na sua forma ativa”, explica Ismael Dale Cotrim, do Centro de Diagnósticos Salomão e Zoppi, o único por enquanto a oferecer o novo exame no Brasil. “Dessa maneira, não há a resposta esperada.”

No Centro Infantil Boldrini, em Campinas, os médicos pesquisam as mutações que facilitam ou dificultam a metabolização de quimioterápicos usados nas crianças. “Um dos alvos são as mutações envolvidas no metabolismo do metotrexate, tioguaninas e tiopurinas, drogas muito empregadas em tumores pediátricos”, explica a oncopediatra Silvia Brandalise, diretora do centro.

No caso do câncer, a análise das peculiaridades do tumor também tem sido feita como forma de indicar a terapia mais eficaz. “Os conhecimentos têm feito toda a diferença na hora de decidir a abordagem terapêutica”, afirma o oncologista José Augusto Rinck Jr., do Hospital A. C. Camargo, em São Paulo. Para o tratamento do câncer de colon, por exemplo, é possível saber quem responderá à droga cetuxumab usando um teste que avalia a ação de uma proteína, a K-Ras. Foi a análise do perfil do tumor que mudou o tratamento da assessora comercial Renata Porto, 44 anos. Ela teve o diagnóstico de câncer de mama há três anos. Após quase dois anos de tratamento, fez um teste e descobriu que a radioterapia não surtiu efeito. “Agora, estou mais segura de que o tratamento poderá dar certo”, diz.

O recurso da farmacogenética também está sendo usado em outras áreas da medicina. No Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, está ajudando a redirecionar o tratamento de portadores de depressão e transtorno obsessivo compulsivo, entre outros distúrbios. Com um exame, os médicos identificam alterações que podem levar, por exemplo, à metabolização rápida demais da medicação. “Nesse paciente, as drogas não causam efeitos terapêuticos ou colaterais. Ele vai precisar de uma dose muito maior para funcionar”, explica Wagner Gattaz, presidente do Instituto.

Há ainda opção de exames do gênero para a Aids. Um teste criado na Universidade Federal de São Paulo, sob a coordenação do médico Ricardo Diaz, indica que paciente pode se beneficiar da droga maraviroque, uma das alternativas mais modernas contra o HIV. Na área da cardiologia, também é possível avaliar a reação indivídual às drogas clopidrogel (impede a agregação plaquetária) e varfarina (anticoagulante). “Há marcadores genéticos que influenciam na metabolização e na biodisponibilidade desses remédios”, explica o cardiologista Alexandre da Costa Pereira, do Instituto do Coração, em São Paulo.


Fonte: ISTOÉ










Da ampliação do diagnóstico ao fortalecimento da prevenção
Por Mariângela Simão

O ano de 2009 foi um marco no enfrentamento da epidemia do HIV/aids no Brasil. Começou com a proposta de ampliação do diagnóstico do vírus em vários segmentos da população. Para isso, colocou em destaque o teste rápido, que agora é 100% nacional. O método reduz o tempo de espera – o resultado sai em menos de 30 minutos –, pode chegar a locais de difícil acesso ou sem estrutura laboratorial.

Ao longo do ano, foram encaminhados ao 26 estados e ao Distrito Federal quase dois milhões de dispositivos para realizar os testes rápidos. Trata-se do recorde anual, desde que a nova metodologia foi adotada pelo programa de aids brasileiro em 2005 para diagnóstico na população geral. Para se ter ideia, o quantitativo do ano passado é quase quatro vezes maior que no lançamento, há cinco anos. Essa ampliação foi um compromisso assumido pelo ministro José Gomes Temporão por ocasião do Dia Mundial de Luta contra a Aids de 2008.
Nunca é demais lembrar que uma parte importante dos diagnósticos de aids é feita tardiamente, quando o sistema imunológico das pessoas já está comprometido.

Outro destaque importante do ano foi o anúncio da maior pesquisa sobre conhecimentos, atitudes e práticas sexuais da população brasileira. A boa notícia é que a camisinha vem se tornando uma grande companheira dos casais no início da vida sexual. Em 2008, 61% dos jovens entrevistados afirmaram tê-la usado na primeira relação. Na pesquisa de 2004, esse índice era de 53%. O problema é que ao longo da vida o preservativo vai sendo deixado de lado. O estudo mostrou que os jovens fazem mais sexo protegido do que os mais velhos. 49,6% das pessoas entre 15 e 24 anos afirmaram ter usado preservativo em todas as relações sexuais com parceiros casuais, nos últimos 12 meses. No grupo entre 50 e 64 anos, esse percentual cai para 32%.

Um dado da PCAP que chama a atenção é que a internet tem sido um meio utilizado pelos jovens para conhecer parceiros. A pesquisa mostra que 10,5% teve pelo menos um parceiro sexual que conheceu na rede mundial de computadores. Entre os acima dos 50 anos, esse tipo de comportamento não chega a 2%.

A comparação dos resultados dos resultados de 2004 com os de 2008 nos acendeu um alerta. O brasileiro tem feito mais sexo casual. Em 2004, 4% das pessoas haviam tido mais de cinco parceiros casuais no ano anterior. Em 2008, esse índice subiu para 9,3%. Ao lado disso, o estudo mostra que quem tem mais parceiros casuais usa mais camisinha do que quem não tem. O conhecimento sobre os riscos de se infectar com o HIV e sobre as formas de prevenção continuam altos. Mesmo assim, a pesquisa identificou tendência de queda no uso do preservativo. Passou de 51,6% em todas as parcerias eventuais, em 2004, para 46,5% em 2008.


Mariângela Simão é diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde

 
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